Unconventional

Nelson Alvarenga para o Jornal Folha de SP

Nelson Alvarenga fundador da marca Ellus, sócio da Inbrands e atualmente presidente da Ellus.
MEU EX CHEFE QUERIDO (que por sinal foi um prazer trabalhar pra ele)
ele fala sobre os estilistas brasileiros e também sobre as semanas de moda no Brasil.

Vou publicar essa entrevista aqui no blog para quem quiser dar uma lida, pois vale muito a pena conhecer e considerar as ideias de um dos homens mais importantes da moda do país. Ameeeeeei!!!

FOLHA – Por que a roupa com design ainda é cara no país?
NELSON ALVARENGA – Por causa do custo Brasil. Temos uma das maiores taxas tributárias, um dos juros mais altos do mundo e existe muito desperdício, por razões culturais. Na construção civil, por exemplo, o desperdício no Brasil está em torno de 35%, contra 4% nos EUA.

FOLHA – Desperdício de matéria-prima e tempo de trabalho?
ALVARENGA – Desperdício de tudo, falta de racionalização, de inteligência, porque a questão de formação da gestão e da mão-de-obra é fundamental.

FOLHA – Onde ocorre sobretudo o desperdício na moda?
ALVARENGA – De mil jeitos. Você já começa a desperdiçar com o nosso calendário de moda, que é totalmente errado.

FOLHA – As datas de realização dos desfiles estão erradas?
ALVARENGA – Estão. No exterior, entre a realização dos desfiles e o embarque das mercadorias para os compradores transcorrem cerca de cinco meses. É um bom tempo para organizar a logística da produção e da distribuição. Aqui, os desfiles de inverno, por exemplo, são feitos em janeiro, e as mercadorias têm que ser entregues no mês seguinte, porque em 1º de março o lojista já quer uma vitrine linda de inverno. Quem tem bola de cristal para saber, com coleções gigantescas, qual vai ser o mix de produtos que os lojistas vão querer? Você é obrigado a fazer um monte de chutes de antecipação de produtos, que geram sobras enormes e desperdícios.

FOLHA – Por que não mudam o calendário dos desfiles?
ALVARENGA – Porque tudo isso é decidido como no Congresso Nacional, onde o voto de Sergipe vale igual ao voto de São Paulo. A escolha é feita por maioria simples, e a maioria das marcas do calendário de moda não tem uma estrutura que precise de logística de produção, é formada por empresas muito pequenas, que acham que o fato de postergar a lição de casa vai torná-la mais fácil.

FOLHA – Com a Inbrands no controle da SPFW e do Fashion Rio, esse calendário pode mudar?
ALVARENGA – Paulo Borges está trabalhando com as pessoas. Estamos lutando por isso há muito tempo, para dar mais saúde aos negócios da moda brasileira. Do contrário, todo mundo vai quebrar. Esse calendário é inviável, é uma herança da era da inflação, quando as pessoas compravam muito pouco e tudo era produzido e vendido muito rapidamente.

FOLHA – Que outros problemas o sr. vê na indústria de moda no país?
ALVARENGA – O negócio da moda no Brasil, em comparação a outros setores, como o automobilístico, ainda está na adolescência. Só com pessoas com outro nível intelectual e com outra mentalidade é que o país será mais competitivo e terá, inclusive, a chance de poder exportar, de se tornar um “player” no mercado internacional. Além do custo Brasil e dos desperdícios, não temos também uma tradição de design de moda, como na Itália. O Brasil tem tradição de futebol, de bunda, de outras coisas…

FOLHA – A moda brasileira ainda copia muito a estrangeira?
ALVARENGA – Ah, copia. Por isso mesmo as pessoas ficam retardando o lançamento das coleções, pois têm a esperança de ver até o último desfile da alta costura da semana passada, em Paris. É uma atitude juvenil. É preciso desmamar, buscar o seu estilo. Se você acha que é criativo e tem autoria, não precisa ficar dependendo do que é feito lá fora. É claro que as influências hoje são globais na comunicação, mas não são dois ou três meses que mudarão as coisas, se você tem a sua linha de conduta e o seu eixo de pensamento já formado, em termos de estilo e identidade.

FOLHA – Mas roupa com identidade forte vende bem no Brasil?
ALVARENGA – Você só tem duas formas de vender: ou preço ou identidade. O que o mundo respeita é isso. O meio termo não quer dizer nada. Precisamos acertar, então, os nossos calendários e atrair para os negócios pessoas mais bem preparadas. Na moda brasileira, ainda tem aquela coisa de o estilista dizer: “A mamãe acha que eu tenho bom gosto, que eu sou genial”. Não é bem assim. Para tudo que você faz na vida, tem que ter conteúdo e preparo. O estilista, o suposto ou pretenso artista -pois você tem que questionar a legitimidade de tudo-, normalmente é meio prepotente e meio preguiçoso. Ele não gosta de por a mão na massa. Tem muitos desse tipo no Brasil.

FOLHA – Como conciliar a criatividade do estilista e os interesses comerciais do empresário?
ALVARENGA – Há muito o que se trabalhar dos dois lados, seja do investidor, seja do estilista. As coisas lá fora já estão mudando. As empresas têm dado muito foco aos resultados obtidos pelo estilista. Ele precisa agora criar a coleção e acompanhar o negócio até o resultado final das vendas. Não fica mais numa bolha utópica. Tem que saber que está criando para o consumo. As pessoas mais inconsequentes nesse aspecto estão ficando isoladas, pois vivemos num mundo de resultados.

FOLHA – O que mais o sr. mudaria nas semanas de moda brasileiras?
ALVARENGA – Estamos numa fase de transição no mundo todo. Nos anos 90, o frisson era maior em relação aos desfiles. Hoje, não tem a mesma intensidade. Mesmo porque, de fato, lançamos as coleções e chamamos os clientes para o show-room bem antes dos desfiles. A semana de moda deveria ter a função de ser um lançamento para o lojista. Mas isso está deixando de acontecer. Ainda mais porque ele sente que os desfiles estão ficando muito distantes da vida real. Nós temos consciência disso. Se a gente quer ser o calendário oficial da moda brasileira [com a SPFW e o Fashion Rio], temos que ir consertando aos poucos e voltar para o objetivo, que é trazer o dono da loja. Ele é público-alvo dos desfiles, juntamente com a imprensa.

FOLHA – As marcas da Inbrands tiveram queda de vendas com a crise?
ALVARENGA – Tivemos pequena queda nas multimarcas, porque o interior ficou muito assustado no final do ano passado com a redução no preço das commodities agrícolas e minerais.

FOLHA – Quanto representa para a Ellus a venda em multimarcas do interior do país?
ALVARENGA – Representa 70% de nossas vendas. O restante vem das nossas lojas próprias. É uma ilusão achar que a moda está concentrada nas grandes cidades. Isso não ocorre em nenhum lugar do mundo. As metrópoles podem ser formadoras de opinião, mas elas não são sustentadoras. Há uma riqueza fabulosa surgindo em toda parte no Brasil, quanto mais o país fica eficaz em agrobusiness.
Escolhemos a melhor loja multimarcas de cada cidade para torná-la um revendedor autorizado. Se não fizermos isso, viraremos artesãos. Ainda mais que as grandes companhias estrangeiras, as Zaras da vida, já estão de olho no nosso mercado interno e certamente virão para o país. Se não estivermos musculosos o suficiente, se não nos modernizarmos e ganharmos tamanho e competitividade, nós vamos desaparecer.

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Este post foi publicado em 22/01/2011 às 4:23 pm. Ele está arquivado em Entrevistas e marcado . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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